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A campanha

Tod@s por elas: combate à cultura machista e à violência de gênero

As artes marciais e os esportes de combate constituem fortes elementos do mundo masculino. Envolvem luta, força física, virilidade, dominação, competição, numa idealização do homem forte. Mas quem conhece essas modalidades – jiu-jitsu, judô, boxe, karatê, entre outras – sabe que, além da técnica, os treinos envolvem filosofias que prezam pela disciplina, respeito, autocontrole, equilíbrio físico e mental e amizade. E, cada vez mais, esses espaços vêm recebendo outros públicos, entre crianças, adolescentes, mulheres e LGBTs.

É com esse escopo que nasceu a campanha “Tod@s por elas”. Os rostos e vozes que a estrelam são de atletas de artes marciais mistas (jiu-jitsu, boxe, kickboxer, muai thay, karatê, judô, entre outras) ligados à Federação Gaúcha de Artes Marciais Mistas (FEGAMM). São eles que levarão aos seus ambientes, ainda considerados redutos predominantemente masculinos, a mensagem de que, mais do que unir forças para combater de forma efetiva a violência contra a mulher, é preciso desconstituir a cultura do machismo.

Dados divulgados pelo Atlas da Violência (2019) apontam que a média é de 13 mulheres assassinadas no Brasil por dia. A taxa de feminicídios no país é a quinta maior do mundo. Ciúmes, sentimento de posse e inconformidade com a separação figuram entre os principais motivos desses crimes.

Sancionada em 2006, a Lei nº 13.340, conhecida como Lei Maria da Penha, foi um marco para uma mudança de paradigma no trato da violência contra a mulher no país. A questão finalmente saiu do ambiente doméstico, deixando de ser tratada como um problema “de marido e mulher”, para ganhar o devido status de crime. No entanto, só em 2015 é que foi criada uma legislação (a Lei 13.104/15) que aplica penalidade especial para o homicídio praticado por razões da condição do sexo feminino. Assim, o feminicídio foi colocado como circunstância qualificadora do crime de homicídio e inserido no rol de crimes hediondos.

O Poder Judiciário do Rio Grande do Sul vem promovendo uma série de ações, que vão desde a criação de unidades e atendimentos especializados, formação dos grupos reflexivos de gênero até parcerias com vistas ao fortalecimento da independência e da autoestima das vítimas e de seus familiares. Os crimes envolvendo violência doméstica e familiar contra a mulher são julgados nos Juizados Especializados (ao todo, o RS conta com nove unidades), criados a partir dessa legislação, ou, nas cidades em que ainda não existem, nas Varas Criminais. Já os feminicídios são casos para julgamento do Tribunal do Júri.

A campanha une as ações do Judiciário com a força do esporte, norteados pelas filosofias de justiça, igualdade, respeito, disciplina e equilíbrio. Junte-se a nós nessa luta. Não aceitamos perder nenhuma mulher para a violência. Basta de feminicídios! #tod@sporelas

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Depoimentos

Quem luta, não briga

As artes marciais estão no DNA de Fernando Cantes, o Mestre Pelé. Filho de pugilista (conhecido na década de 1960 como Demolidor Gaúcho), o Presidente da Federação Gaúcha de Artes Marciais Mistas (FEGAMM) começou a treinar aos 6 anos. A primeira aula foi com o o shiran Teruo Obata, um dos nomes mais conhecidos do judô no RS. Mestre Pelé foi jogador de futebol, capoeirista e, atualmente, é lutador de boxe e de jiu-jitsu.

A fundação da FEGAMM ocorreu em 2012, sendo Mestre Pelé o seu primeiro presidente. Agora, ele está novamente à frente do grupo, até 2022. “Somos uma entidade disciplinadora e fiscalizadora de todas as modalidades de artes marciais do RS. Temos 60 municípios cadastrados, onde contamos com representantes que levam a mensagem: ‘quem luta, não briga’”, explica Mestre Pelé.

Ele conta que, quando a Federação recebeu o convite para participar da campanha “Tod@s por elas”, considerou uma oportunidade para se unir à luta contra dois grandes problemas sociais – a violência doméstica e o feminicídio. “Achei muito importante. Estamos vendo o que está acontecendo, o grande número de mulheres espancadas, violentadas e assassinadas, e não podemos considerar que isso é normal”, afirma Mestre Pelé.

Educador há muitos anos, ele observa que o número de alunas tem crescido de forma expressiva e que procura tornar o ambiente das aulas o mais agregador e confortável possível. “Fico feliz de ver que muitas delas estão praticando, desenvolvendo e competindo. Essas meninas trouxeram famílias inteiras para treinar conosco, e isso é muito legal, pois, no esporte, somos uma grande família”.

Para o atleta, os lutadores serão mais do que os rostos da campanha, multiplicadores de uma mensagem pacificadora: “Precisamos passar adiante este recado: chega de violência contra a mulher! Queremos que o Brasil inteiro compre essa ideia e, de fato, respeite a mulher daqui pra frente”.

Fernando Rodrigues Cantes (Mestre Pelé), 50 anos
Educador Físico, técnico, lutador de boxe e de jiu-jitsu

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Em família

Paulo Ricardo já praticava atletismo e futebol, quando conheceu a Federação Gaúcha de Artes Marciais Mistas (FEGAMM), há dois anos. A ideia era levar o filho, Gabriel, na época com 9 anos, para que o menino conhecesse o esporte. Mas toda a família acabou envolvida.

Paulo conheceu o jiu-jitsu, com o objetivo de melhorar a saúde. Mas acabou conhecendo uma modalidade que, além de benefícios ao corpo, proporciona também disciplina, autoconhecimento e preza pela união da família. A esposa dele, Cristiane, também começou a participar do grupo de defesa pessoal destinado a mulheres. E o filho Gabriel melhorou o seu rendimento na escola.

“O ambiente é de união, somos todos uma grande família. Temos crianças, adolescentes, adultos. Homens e mulheres. E não há diferenças”, afirma Paulo, que é também Diretor de Marketing da FEGAMM.

O atleta considera importante conversar sobre violência doméstica com a família. “Ensinamos ao nosso filho que não podemos agredir ninguém. Somos lutadores para participar de competições, e não para brigar”, afirma Paulo. “A mulher pode fazer o que ela quiser. Acredito que treinar conosco fez bem para muitas das nossas alunas. Percebo o quanto estão bem, mais seguras”.

Sobre a campanha “Tod@s por elas”, Paulo considera que a mensagem, direcionada ao público masculino, surtirá um efeito positivo. “São homens falando para homens, acredito que este seja um apelo diferente e que vá dar muito resultado”.

Paulo Ricardo Bandeira da Silveira, 35 anos
Supervisor de merchandising e lutador de jiu-jitsu

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Da sala de aula ao tatame

Os anos de docência deram a Erlon uma triste certeza: a de que, ainda na adolescência, muitas mulheres já sofrem violência doméstica. Como a maioria não tem coragem de denunciar seus agressores, e, muitas vezes, pode seguir sofrendo por muito tempo, o Professor do Ensino Médio vê na campanha “Tod@s por elas” mais uma ferramenta aliada ao combate da violência de gênero.

“Temos alunas que sofrem violência doméstica do namorado, do marido, dos pais, dos irmãos. Na maior parte das vezes, ficamos sabendo da situação pelas amigas da vítima, que buscam ajuda. Porque, quem sofre, se fecha, passa por um momento de tristeza e não permite que a gente se aproxime facilmente”, revela Erlon, frisando que, em muitos casos, a família sabe da situação vivida pela vítima.

A experiência faz com que o Professor também consiga identificar, em alguns adolescentes, potenciais agressores. “Pelas pequenas práticas: ele é ciumento, proíbe que a namorada use certas roupas, a isola das amizades e isso vai evoluindo para ameaça, até que a violência se concretiza”, ressalta.

A escola em que Erlon trabalha criou um seminário para que os alunos trabalhem o assunto em sala de aula. “É uma forma de dizer a eles que as pessoas sabem como é o perfil de uma relação abusiva, como ela começa e como termina”.

Lutador de jiu-jitsu, Erlon comemora que o movimento de mulheres que procuram as artes marciais é cada vez maior. No Centro Estadual de Treinamento Esportivo (CETE), ele costuma treinar ao lado delas. “É muito bacana ver essa evolução. Geralmente, chegam acanhadas, porque a luta marcial é um reduto masculino”, conta. “Temos algumas adaptações, por questão de bom senso. Como, por exemplo, o aspecto da força física, em se tratando de pessoas mais leves, de porte menor – não só mulheres, mas também adolescentes”, explica.

O atleta considera que a campanha “Tod@s por elas” tem um forte apelo à conscientização e respeito à mulher, mas também poderá mostrar o lado pacificador do esporte. “Somos homens que se identificam com a luta, com a força física. Mas sabemos que temos um papel na comunidade que é o da disciplina, do equilíbrio emocional, do respeito ao outro. E isso envolve a mulher, a figura feminina”.

Erlon Schuler, 43 anos
Professor e lutador de jiu-jitsu

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Volta por cima

A vida de Sandro deu muitas voltas, mas ele acabou retornando a um dos lugares mais marcantes da sua adolescência: o Centro Estadual de Treinamento Esportivo, o CETE. Foi naquele complexo, onde hoje treina, que conheceu o judô, aos 12 anos. Sandro era um atleta promissor, mas um longo período o separaria do esporte e daquele local, por conta do uso abusivo de álcool e drogas. Até que retornou para dar uma guinada na sua história.

“Aos 15 anos, fui apresentado ao álcool e às drogas. Minha vida mudou completamente. Comecei com maconha, álcool, pó. A pessoa pensa ‘fumo quando quero’, ‘uso quando quero’, e não é assim. A minha vida nunca mais progrediu. Trabalhei só para sustentar o meu vício”, lembra Sandro.

Há seis anos, o atleta sofreu um infarto. Estava com 22 kg a mais, sedentário e acumulava muitos problemas de saúde. Na época, o filho fazia estágio no CETE e ali ele começou a fazer caminhadas. Devido à abstinência, a ansiedade era grande. E quando um atleta vestindo quimono passou por Sandro, ele teve o ‘clique’ que precisava: “Foi aí que conheci o jiu-jitsu. Era o que precisava na minha vida”, afirma.

Ao voltar a treinar, Sandro redescobriu não só o esporte, mas a si mesmo. “Recebi um aviso: ou continua, ou te mata. Meu corpo não aguentava mais”, lembra ele, que já foi campeão gaúcho e sul-brasileiro na categoria master 4 (46-52 anos / 76-82 kg).

“O jiu-jitsu é disciplina pura. Para a saúde mental, não tem coisa melhor”, ressalta o atleta. “Se antes meus filhos viam o pai chegar em casa todos os dias detonado, hoje, eles vêm o pai chegar cansado do treino”, compara. Sandro agradece à esposa pelo apoio: “Cansei de chegar de madrugada e ter muitas brigas com a minha mulher. Sei que isso também é um tipo de violência. Ela é uma mulher séria e prestativa, que sempre esteve ao meu lado”.

Além de treinar, Sandro voltou a surfar e a mergulhar. “É tudo que eu tinha largado. Graças a Deus, retomei a minha vida”, comemora o atleta.

Sandro Souza Alves, 49 anos
Empresário e lutador de jiu-jitsu

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Foco e disciplina

O esporte deu à Jeferson a calma necessária para o seu amadurecimento. “Eu era muito irritado. Explodia por qualquer coisa”, lembra o lutador de jiu-jitsu. “Antes, eu chegava em casa e discutia com a minha esposa, quase nos separamos. Depois que comecei a treinar, ela sentiu a diferença, como fiquei mais tranquilo. Aprendi a deixar para trás muitas coisas”, conta.

Não só isso; o atleta tem Déficit de Atenção e considera que a prática o ajudou a ser mais focado e disciplinado. Jeferson começou lutando karatê, há 15 anos, por questões de saúde. Um dia, assistiu a uma aula de jiu-jitsu, e gostou.

Treinando no Centro Estadual de Treinamento Esportivo (CETE) há 4 anos, o lutador considera importante ações de combate à violência doméstica. Ele próprio conviveu de perto com o problema. “Minha mãe e minha esposa já sofreram violência doméstica de ex-companheiros. Minha mãe teve a mão quebrada e foi ameaçada com arma de fogo. Minha esposa teve o nariz quebrado. Sofreram bastante. Sei como é”, lembra.

Para ele, é preciso desfazer mitos em torno dos crimes de gênero, em especial, o que considera que o amor é a causa que move o agressor. “É difícil entender que alguém mata outra pessoa porque a ama. Isso não é amor”, frisa o atleta de MMA.

Jeferson Chagas, 34 anos
Estudante e lutador de MMA

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Estatísticas

BRASIL – 5° PAÍS NO RANKING DOS MAIS VIOLENTOS CONTRA AS SUAS MULHERES
13 mulheres assassinadas por dia
Aumento de 20,7% da taxa nacional de feminicídios em 10 anos
39,3% das vítimas assassinadas dentro de casa

INDICADORES DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NO RS – 2019
287 feminicídios tentados
82 feminicídios consumados
1.351 estupros
16.828 lesões corporais
30.729 ameaças

DADOS DO JUDICIÁRIO – 2015 a 2019
Feminicídios
1.154 processos ativos consumados e tentados
1.571 sentenças de feminicídios

Violência Doméstica
143.579 processos ativos de violência doméstica
540.849 sentenças de violência doméstica
457.320 medidas protetivas aplicadas

Fontes:
Atlas da Violência 2019
Corregedoria-Geral da Justiça – Atualizado em 19/11/19
SSP/RS – Atualizado em 5/11/19

Telefones úteis

Brigada Militar 190
Central de Atendimento à Mulher 180

Onde buscar ajuda e orientação em Porto Alegre

Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (51) 3210-6668 / 3210-6670
Delegacia da Mulher (51) 3288-2172
Ministério Público (51) 3295-9782
Defensoria Pública (51) 3228-7070
Centro de Referência de Atendimento à Mulher Vítima de Violência Márcia Calixto (CRAM) (51) 3289-5110 / 3289-5101 / 3289-5117

Juizados na Região Metropolitana e Interior

Canoas (51) 3472-1184
Caxias do Sul (54) 3228-1988
Pelotas (53) 3279-4900
São Leopoldo (51) 3590-1299
Novo Hamburgo (51) 3553-5500
Rio Grande (53) 3231-3033
Santa Maria (55) 3222-8888

Para mais informações, acesse a Cartilha de Combate à Violência Doméstica contra a Mulher.

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